Com este artigo não pretendo teorizar sobre estudos e postulados; pedagogias e defensores da arte no sistema de ensino; ensaios sobre artes maiores e artes menores.
Pretendo sim iniciar uma reflexão sobre a necessidade da arte e cultura como veículo de enriquecimento do cidadão de amanhã. A arte como experimentação da liberdade de ser, de pensar por si, de se afirmar, de argumentar, de se impor pela razão e pela palavra e não pela força e pelo punho.
Falo da arte e cultura nas escolas para além das visitas de estudo a estruturas artísticas (museus, palácios) e eventos culturais (teatros infantis). Falo da arte e cultura vivida dentro da escola, como factor de orgulho individual da criança e integração social das suas diferenças.
A arte e cultura nas escolas como práticas de desenvolvimento e descoberta individual – a obra literária, a escultura, a pintura, a retórica, os grupos de teatro escolar, os grupos de música da escola.
Vivemos uma era onde a tecnicidade é um factor preponderante e inultrapassável, mas a excelência da educação – como formador de um bom cidadão, só é atingida por uma educação nas artes, no desporto e na filosofia.
A cultura grega, berço cultural da civilização ocidental, acreditava que a sua cidade – estado iria tornar-se a mais forte se cada menino desenvolve-se integralmente as suas aptidões.
Na escola grega, “ o homem forma-se segundo um crescente domínio de si, pela libertação de seus instintos, desejos e paixões, que devem ficar submetidos à razão. Para alcançar tal ideal propõe a ginástica, para desenvolver o corpo (nós estamos a caminho de reduzir o empenho no desporto escolar), e a música, com a leitura e o canto das obras dos grandes poetas, para o espírito (nós com uma estratégia de colocar a filosofia em agonia, o ensino da história desconexada de uma mensagem civilizacional e o ensino minimalista do português e dos seus vários autores criando uma perda de identidade como povo). Esse programa educativo tratava de desenvolver no homem a qualidade da temperança e que implicava um perfeito domínio de si, aliado à sabedoria.”
Esta escola que espelha um ideal de formação do homem em suas várias esferas (social, politica, cultural e educativa), a Paidéia – esta palavra não pode ser traduzida como educação, pois significa mais do que isso, significa também cultura, instrução e formação do homem. É colocar o homem a par de todo o conhecimento necessário para a harmonia consigo próprio e com a comunidade ao seu redor.
A encruzilhada civilizacional que vivemos, exige processos críticos, criativos e humanistas, só possível com uma educação completa que forma cidadãos completos, para agentes criadores e condutores de mudanças. O homem como centro mas ao serviço da comunidade e da sua variedade, é o desafio que a escola do séc.XXI deve vencer, sem descorar o conhecimento técnico e científico, também ele carente de imaginação, criatividade, liberdade e razão.
Precisamos também de uma escola que reintroduza os valores produtivos do passado; valores de trabalho, esforço, mérito, persistência, objectivos e metas individuais e colectivas.
Precisamos de uma nova cultura de identidade - não saudosista nem renegada do nosso passado mas uma identidade global, dando e tomando conhecimento e partilha, com e do outro, com integração e transmissão intergeracional, incentivadora de produtos culturais (textos, esculturas, peças de teatro, musicas, etc.) e que aceite sempre a dúvida e a critica, mas também a decisão e a coragem, para irmos evoluindo.
Estarão preparados os currículos de cada nível de ensino, de formação do magistério primário e das escolas superiores de educação, para atingirmos este objectivo? Terá a lógica corporativa dos vários agentes educativos, espaço para pensar e agir abnegadamente a bem geral, sem ser só na defesa de estatutos, regalias e vencimentos? Estará a comunidade educativa pronta para exigir uma nova arquitectura do aparelho público responsável pela educação dos Portugueses?
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